terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

QUÊ  QUI É! TÔ PAGAANO!


Fim de semana. Sábado à noite. Terminava a novela das 8 na Tv Glogo,  que agora virou  novela das nove. Critica-se muito, mas a alta audiência da novela das 8 que virou novela das nove, continua no BBB 12. Muita gente não gosta do que vem em seguida: o Zorra Total.  Quero falar de uma das atrações do Zorra Total, que ficou muito conhecida no programa   foi uma frase proferida pela quase famosa, quase elegante, quase  "gente fina" a  personagem  Lady Keity, que pode ter incomodado muita gente.

 Quê qui é, tô pagaaaaaano!

Tratava-se de uma personagem que por motivos não muito claros,  subiu na vida graças a um casamento financeiramente bem sucedido. De resto só a Lady Keity, poderia dizer alguma coisa a respeito da sua escolha conjugal. 

Mas será mesmo que que ninguém de nós ouviu, no dia a dia,  esta mesma frase proferida  por outras pessoas, seguidoras da linha  Lady Keity  em situações inusitadas. Normalmente a frase vem de alguém que, graças às mudanças econômicas dos últimos tempos, teve a sorte de subir na vida - financeiramente. Infelizmente, não passa pela  maioria dessas pessoas  que a riqueza não é apenas ter dinheiro, mansões, carro importado ou mesmo marido rico. Já dizia um amigo meu que não existe maior forma de pobreza explícita do que aquela ostentada tendo como base somente o  poder financeiro, como dizem os economistas, o poder aquisitivo,  desacompanhado de qualquer classe, educação ou cultura.

Quem nunca viu a moça que trabalha no caixa de supermercado suportar grosserias de uma Madame Lady Keity da vida acompanhada da frase:

- Que qui é? Tô pagaaaano! – e em nome do dinheiro, que torna aquela pessoa interessante não para a vida, mas para o mercado  justifica suas grosserias dirigidas contra a caixa que antes de começar seu trabalho ouve do  patrão: -Aconteça o que acontecer, o cliente tem sempre razão.

Já fui diretor social de clube. Lembro-me de tantas vezes ter visto desperdícios de alimentos, bebidas na mesa de pessoas que tinham segundo o dito popular  “o olho maior que a boca”. Lotavam pratos e copos até não mais caber, comportamento consumista desprovido de qualquer lógica alimentar ou celebrativa. Terminada a refeição deixavam nos pratos grandes porções de alimentos. Se alguém sinalizava a essa pessoa os seus exageros,  essas pessoas  apenas respondiam:

- Que qui é? Tô pagaaano!

Quem nunca presenciou patrões em desrespeito aberto ao seu empregado, extrapolando as regras não só de relação profissional, mas de relações humanas e cristãs, sob o argumento de que ele é importante porque é o empresário, porque "dá emprego",  humilha, desrespeita, infringe leis trabalhistas simplesmente baseado no princípio do:

- Que qui é? Tô pagaaaano!

Um dia, uma criança me contou que viu uma senhora desperdiçando água com a mangueira aberta jorrando litros e litros do precioso e cada vez mais raro líquido  sobre a calçada que descia rua abaixo. Aquela água que jorrava rua abaixo sem nenhuma utilidade deixava de ser rio, riqueza natural para se tornar simplesmente, esgoto. O esgoto, já teve muitas funções ao longo dos tempos, mas, nos dias de hoje,  sua principal função, creio, eu  é fechar a última etapa do ciclo urbano de toda forma de desperdício. A criança então, seguindo as orientações que havia recebido na escola sobre a necessidade de se evitar o desperdício de água, foi ter com aquela senhora.  Disse-me a criança que a resposta que estava na ponta da língua, grande discípula de Lady Keiti, não tardou a responder:  

- Que qui é? Tô pagaaano! Posso pagar, gasto quanto quero. . .

Já vi uma vez uma pessoa detentora de um patrimônio financeiro  que podia classificá-la como milionária, pressionar uma autoridade religiosa a desfazer sua agenda de trabalho em pleno dia de Natal, para realizar em caráter particular e privado a cerimônia de casamento da filha mediante o simples mas, ridículo argumento do:

- Que qui é? Tô pagaaano!

Mal da globalização dizia um estudante de ciências sociais, amigo meu. Segundo esse  amigo,  um dos efeitos perversos  da globalização é esse. Com o avanço no setor de serviços, abriu-se grandes  possibilidades de ascensão social pelo predomínio do saber técnico em determinadas atividades, ou por falta de mão de obra qualificada para novos serviços que surgiram com a avalanche de quinquilharias jogadas no mercado de consumo, sem as quais a humanidade sobreviveu por milhares de anos, e sem elas, não é agora que iria  sucumbir.

Num passado não muito distante podia-se ascender socialmente por exemplo, estudar com vistas a ser um professor, um advogado, um padre, um pastor, um médico, um engenheiro. Tais funções não exigiam apenas o conhecimento técnico, intelectual, não apenas se valorizavam pelas melhores remunerações no mercado de trabalho. Para se ter sucesso nessas atividades dentro do contexto social, exigia-se antes de tudo , ter noção de bom relacionamento humano, de ética, de convívio social, não bastava ter o dinheiro, precisava acima de tudo ter humanidade e no popular, "ser educado".

A sociedade consumista, que valoriza acima de tudo o poder de compra criou essa figura que pouco está preocupada com as boas amizades, sobre como comportar-se socialmente. Recentemente, um colunista da Revista Veja(J.R.Guzzo em Veja, ed.2254, 1º/02/2012, pg.106), alertava citando Scott Fitzgerald: "Os ricos são seres humanos diferentes de você, e, provávelmente de todas as pessoas que você conhece mais de perto. . .", ". . .para ser rico de verdade é fundamental ter dinheiro, claro, mas não é suficiente. . ." E continua: não confundir quem é rico com quem tem apenas dinheiro, o que não é a mesma coisa, para concluiir ao final de sua coluna: ". . . desconfie dos que parecem ter muitas coisas em comum com você próprio. Difícilmente serão o artigo legítimo". Ao que acrescento: Se você convive com "ricos", e se por algum momento você tem a ilusão de que ele é igual a você, ou seja de que ricos são pessoas iguais a todo mundo, esqueça. Na primeira oportunidade ele vai se apoderar da sua condição de rico e impor sua condição, com educação ou não, com gentileza ou não. Pouco lhe interessa a cultura, a arte, a religião, a fé. Basta-lhe o dinheiro bolso, para se sentir grande e melhor que você que está com um monte de contas vencidas, dando duro para pagá-las, trabalhando não menos que ele. 

E  o dinheiro no bolso que poderia aprimorar novos costumes nos novos afortunados, nos novos ricos, poderia ajudá-los a crescer como pessoas: por exemplo nas viagens que realizam, poderiam ser menos ostensivos no ato de consumir, e mais abertos para ampliar a sua cultura pessoal a respeito do que é o mundo, da beleza que é conhecer novos povos, novos  costumes. Mas, não, com dinheiro no bolso, em país alheio, mantêm o nariz empinado, impondo a cultura do "Tô pagaaano!". 

Toda  sorte de respeito humano adquirida em séculos de desenvolvimento da civilização humana perde sentido diante do poder do dinheiro nos nossos dias  para justificar grosserias, maus gostos, breguices seja no vestuário, no relacionamento, no modo de se divertir. 

Apesar da personagem Lady Keity não fazer mais parte do sábado à noite dos brasileiros, com certeza ela ficará nas nossas mentes. A qualquer instante poderemos encontrá-la no dia a dia, dirigindo mal educadamente nas ruas, invadindo vagas de estacionamento destinadas a idosos  gestantes e deficientes, furando filas nas padarias, lanchonetes e supermercados ou se postando farisaicamente de nariz empinado nos bancos das Igrejas. E o lema, desaconselhável para as  pessoas elegantes, ricas ou não,  se eterniza:

- Quê qui  é? Tô pagaaano!                        (By José Bressanin-Abril/2012)


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