quinta-feira, 26 de abril de 2012

INTERIORES







INTERIORES


No meu mundo interior habitam infinitas imagens. Belas imagens e imagens terríveis que chegam a dar medo. Na ausência do entendimento do que querem dizer, dou nomes diversos: esperança, fé, alegria, às vezes, felicidade.


Posso dizer que é um mundo desconhecido, porque me obriga a nominar pelo medo de sentir o seu verdadeiro significado.

Mas de uma coisa tenho certeza: é o desconhecido que me mantém vivo, pois se soubesse o real significado dessas imagens, talvez minha razão as sufocasse levando-me a uma vida vegetativa, à uma morte cerebral, com o corpo em movimento.

 Interioridade, fonte da vida.

A cada dia , essas imagens, ás vezes novas, muitas vezes repetindo imagens anteriores, lançam no meu íntimo sentimentos diversos, gerando sonhos, às vezes viáveis, das quais a vida ainda não me ensinou tirar o devido proveito. Talvez mesmo não tenha vivido o suficiente para já possuir essa virtude. Doutras vezes, essas imagens me parecem ali na minha mão, ao meu alcance - me pegue, sou sua! - pedem-me. 

Mas os filtros do real ainda me afirmam: - impossível!  - E perco mais uma chance de ser um pouco mais feliz.

Mas é essa excitação diante do estranho estampado nessas imagens interiores que anima meus projetos de vida. Passo adiante a mensagem que delas emergem e que atinge minha existência física dando-me  conta do que me parece inviável, mas nem por isso é suficiente para manter-me alheio ao mundo dos  meus desejos.  O que parece impossível de enquadramento no tempo e espaço, de repente torna-se plausível pela força da Fé não baseado na experiência do que já foi realizado, mas fortalecido pela Fé na possibilidade da realização do impossível e na gratificação que posso conseguir em desafiar o desconhecido.

No entanto, muitas vezes, as sombras interiores brotam ininterruptamente sem o devido controle, e ao ter de romper resistência de fibras nervosas, fazer jorrar gotas de neurotransmissores, que possam mobilizar músculos que tornem o sonho realidade, deixando de habitar o fantástico para tornar-se existência, o corpo me trai em nome da razão e me deixo paralisar. 

Quando então a claridade da luz se encolhe, vem me fazer frente tudo aquilo que me parece sombra, e já percebendo o vazio existencial, vida sem sentido freada pelo temor de sentir o coração pulsar mais forte, paraliso músculos, freio minhas vontades. Prefiro buscar palavras a tentar viver, e começo a  dar nomes a dor do sonho que não consegue acontecer: depressão, ansiedade, pânico, tédio, melancolia, sei lá. 


Dar nome àquilo que se sente e não se compreende acaba sendo uma maneira cômoda de paralisar a vida e interromper o caminho que se abre todo dia a esse mundo de imagens, mundo que é fonte de vida. Mundo cheio de imagens que por mais que eu queira, por mais que o mundo diga: - não,  isso é loucura!  - nunca desaparecerão, e serão sempre minha razão de viver, elã vital. 

Olha só, interioridade, o mundo que incomoda, e que sem eu o saber, aponta para as verdadeiras razões do meu existir.

A procura, o encontro, a descoberta, o amor, o caminho trilhado, a visão da luz no fim do túnel, as bases do meu agir.  Imagens desconexas, anima e animus, ódio e amor, traição e lealdade, masculino e feminino sustentando uma essência, entrelaçando desejos num só ser: anseios de toques recíprocos, de corpo e de alma. Eros e Tanatos, lutando por mais um minuto de vida, intermediado pela luta de Dionísio e Apolo que traçam a estética do prazer de como e onde estar no mundo. 

Razão irrompendo dando limites ao êxtase de se sentir vivo por instantes, impedindo-me de levar em frente essa ousadia de atingir patamares do impensável. Renúncia ao amor? Medo das convenções ou das decepções marcadas na alma?

Imagens interiores, sonhos, motivos de alegria e tormento. Ao contrário do que imagino, ao contrário do que vivo e vejo na realidade do dia a dia são elas que garantem o essencial para cumprir meus dias de morada neste pequeno grande lar chamado Terra, onde se hospeda o meu corpo e é ponto de partida para a expansão da minha alma, rumo ao desconhecido, mesmo que eu continue negando-me a mim mesmo.

(By José Bressanin-Abril/2012)