quinta-feira, 29 de março de 2012

VELA ABERTA





VELA ABERTA

Vela aberta. Jangada, barco, nau a navegarem mar a dentro. Jangada. 


Nela pisando ao mesmo tempo que deslizando sou apenas recordações 


e esperanças, além das sensações que percorrem um corpo trêmulo 


diante da infinitude. 




A jangada se afasta mais da costa, mar profundo. 


Sensação de de liberdade total. A visão do infinito azul que mergulha 


no reflexo das águas chega a dar medo quando uma ou outra onda


balança a jangada e também o equilíbrio aparente do corpo e mente. 





O desconhecido aumenta ainda mais seu poder de sedução. É como se 


a morte em alto mar já fosse um mero detalhe. Ao longe conforta nos


o pensamento de dois olhos apaixonados mirando-nos a distância na


 esperança de que nossas trajetórias se cruzem a qualquer momento,


numa calmaria, numa tempestade, numa pequena brisa. . . 





De repente o vento muda a direção da vela aberta e o ponto de chegada, 


se existe,  já é outro, da mesma forma que somos obrigados a mudar a direção 


das nossas vidas almejando viver uns anos a mais nesse imenso mar em




que um dia começamos a navegar. No mar que crescemos e fomos 


destinados a navegar. A vela aberta é a referência enquanto mantemos 


a crença de que esse mar é infinito.(By José Bressanin-29.02.2012)

quinta-feira, 1 de março de 2012

É POSSÍVEL SER FELIZ NO SOFRIMENTO?





É POSSÍVEL SER FELIZ MESMO NO SOFRIMENTO?


 Ninguém vive sem sofrimento. No mundo atual, as promessas de felicidade constituem um forte chamariz para todos aqueles que, descontentes consigo mesmo, vêem no mundo externo, a alegria que lhe falta. De fato, a propaganda exerce forte influência na maneira das pessoas enxergarem perante o mundo, á medida que só lhes são apresentados personagens alegres e contentes em lugares semelhante a um jardim do Éden. Paisagens lindas, gente bem vestida, carrões de luxo cuja imagem apresentada supera, na maioria das vezes o concreto que é o carro tal como se encontra na revendedora. 

No mundo da propaganda não existe sofrimento, mas nem por isso deixa de gerar sofrimento tensão. E, muita gente faz desse mundo fantasioso a base para avaliar o seu grau de felicidade. De outras vezes, são as próprias pessoas que num exercício árduo e diário para disfarçar as suas dores e problemas apresentam, uma imagem muito diversa da realidade que vivem interior e exteriormente. Deixam de lado sua realidade de criaturas dotadas de carne, nervos e ossos a para pousar como semideuses que são construídos nos seu imaginário pelas mensagens que o mundo lhes impõe.


Portanto, ser feliz, no mundo de hoje significa deixar de lado o sofrimento que é inerente a todo ser humano. Como afirmei , somos feitos de carne, de nervos, de reações emocionais diante do mundo que nos cerca no qual nos vemos em situações que nem sempre são aquelas que gostaríamos de sentir. Mas a o remédio dos tempos modernos é esse: fazer tudo aquilo que afaste  do nosso mundo a palavra sofrimento. Mas negar as circunstâncias adversas, driblar os obstáculos, depositar uma expectativa perseguindo o modelo imposto pela sociedade, o simulacro da realidade que nos ilude, mundo que nos incita a todo instante em preencher o vazio com a compra de um objeto de consumo "da hora",  sem um mergulho profundo nas suas verdadeiras causas da infelicidade que só tende a perpetuar  nossa infelicidade apesar de até produzir um bem estar passageiro, ilusório.           


Precisamos aceitar que o sofrimento está implícito na nossa condição humana e dele não adiante fugir. A esta altura o leitor deve ter percebido que estou me atendo de forma especial ao sofrimento psicológico, que inclui baixa auto-estima, depressão, sentimento de inferioridade, isolamento social, ou aquela falsa impressão de que somente eu sofro, somente eu tenho dívidas a pagar, sómente eu tenho uma enfermidade grave ou não e que só os outros são felizes. Não vou deixar de lado o sofrimento físico resultante das doenças, mas também procuro me ater à experiência subjetiva que cada um apresenta diante da doença. Como cada um reage diante do motivo do sofrimento que se apresenta em nossa vida, nas suas variadas formas.

Primeiro, se quisermos buscar a paz interior precisamos abandonar o mundo ilusório de que a vida é apenas uma festa, idéia reforçada pela propaganda, pelo consumo. O sonho é necessário, mas precisamos seguir e construir, mais do que nunca os nossos próprios sonhos. 


Segundo, precisamos aceitar o sofrimento como parte da nossa vida. O nosso próprio nascimento resulta de uma seqüência de dores tanto por parte de quem nos gera, como da nossa parte quando deixamos aquele mundinho acolhedor do útero da mamãe e temos que começar a enfrentar uma realidade externa de onde teremos que tirar o nosso sustento, seja físico, emocional, afetivo ou psicológico a partir de enfrentamentos, renúncias ou aceitações. 


Cada sofrimento que temos pela frente ao longo de vida é um novo parto, um novo nascimento, e é assim que tem de ser encarado. Enfrentar cada dificuldade com coragem, encarar a nossa verdade interior nua e crua, sem disfarces, será motivo de crescimento, desenvolve uma capacidade maior de amar, pois à medida que aceitamos o nosso sofrimento também passamos a respeitar o outro não como aquele que ". . .é só alegria" mas também como aquele que também sofre suas dores. 
Também precisamos encontrar um sentido para as nossas dificuldades. Muitas vezes sofremos porque insistimos em oferecer soluções antigas a problemas novos. É a nossa resistência à mudança, é a primitiva vontade de voltar para a barriga da mamãe onde não precisávamos fazer nada para sobreviver. Busquemos,  portanto, soluções novas para novos problemas. 


Vamos quebrar a inércia e romper a resistência a adotar posturas novas diante dos problemas novos que surgem e vão surgir enquanto estivermos vivos. Se você está chegando ao fim deste texto com a consciência de que o sofrimento é inevitável, mas nem por isso, pode ser tomado como algo ruim na nossa vida, se você está concluindo que nenhum sofrimento chega em nossa vida à toa, que bom!. 


O sofrimento aparece para re-significar nossa vida nos ensinando novas formas de estar no mundo.

Você pode estar se assustando em concluir por si mesmo que a felicidade não exclui o sofrimento. Portanto evitar o sofrimento não nos leva  a uma vida mais feliz, disfarçar o sofrimento com paliativos como consumir, beber,  comer, projetar nos outros a causa da nossa infelicidade, comprar, consumir, exibir-se,  não são caminhos que nos direcionam para a felicidade. Agindo assim poderemos estar enganando aos outros, mas não enganaremos a nós mesmos.

Também não quero incentivar uma espécie de culto ao sofrimento que encontra respaldo muitas vezes até numa forma equivocada de interpretar o Cristianismo, como se só através do sofrimento se encontra salvação. É como se dissesse  que para ser feliz é preciso antes sofrer muito. Não, não é disso que estou tratando. 

Talvez você já tenha sofrido muito na sua vida, mas isso não significa que você não possa ser feliz, não significa que você um dia “ foi expulso do paraíso” para sempre.  Saber que o sofrimento nunca acontece por acaso, aponta sempre para um novo significado da nossa vida. 


José Bressanin - Psicólogo - CRP 06/38.629-0